Vontades

Eu tenho vontade de escrever um livro com minhas memórias. Não sobre aquelas do dia a dia, mas sobre aquelas que invadem meus pensamentos. Aquelas memórias de frases não ditas, pensamentos e conceitos não concluídos, ideias mal concebidas ou sonhos apenas sonhados.

Eu tenho vontade de escrever um livro que seja capaz de traduzir minha mente. Que seja capaz de expressar as linhas de pensamentos que carrego comigo e que seriam capazes de aquecer-me no inverno se tricotadas.

Aqueles pensamentos filosóficos, aqueles pontos de vista, aquela visão de mundo muitas vezes não compartilhada.

Vontade de tirar as sensações e sentimentos que guardo dentro de mim e mostrar para o mundo. Ou só tirar mesmo daqui de dentro. Para ver se acho um pouco mais de espaço em mim. Para ver se usufruo um pouco, nem que seja por um dia, do vazio. O vazio das responsabilidades e obrigações.

Vontade de voltar para a casa da minha mãe por um instante e pedir desculpas por ter crescido. Por ter virado essa mulher forte e cheia de ideias. Geniosa, ela diria. Mas que, no fundo, continua sendo aquela garotinha esperando o ônibus kaputt da escola sozinha.

Vontade de voltar no tempo para poder fazer melhor. Vontade de poder prever o futuro, para saber o que precisa ser feito melhor. Aliás não, que dá muito trabalho.

Chega de escrever, tentar traduzir sentimentos, enquadrar pensamentos e empacotar sonhos.

Vontade mesmo só de ser, de estar e de curtir:

… quem sou, quem fui e quem serei.

Uma pessoa cheia de vontades.

Rapidinhas

No salão, a cabeleireira:
– Se continuar aparecendo cabelo branco nessa velocidade, até o verão, a gente faz um “platinado”.

Colega de trabalho:
– Posso te ligar no domingo para acertarmos detalhes do projeto?

No restaurante, a garçonete:
– Não vai pedir, não? A cozinha vai fechar.

Na rua, um desconhecido:
– Afff… Não dá pra andar mais rápido?

Juro que tudo ficção nessa cidade cenográfica chamada Berlin.

Permitido e proibido

Alemães falam que a primeira palavra que estrangeiros aprendem, quando chegam no país, é “verboten” (proibido). Proibido pisar na grama; proibido para menores; proibido entrada; proibido isso e aquilo… São frases constantes em placas pela cidade.

Além disso, existem as regras sociais cheias de proibições intrínsecas: antes de entrar na casa de alguém, tem que perguntar se é preciso tirar o sapato. Não pode chegar atrasado. Não pode atravessar a rua com o sinal fechado. Não pode andar na ciclovia. Ou, tem que ser assim ou assado.

Você se sente vivendo numa sociedade cheia de proibições e restrições.

Abraçar também não pode. Tem que ter uma certa familiriadade para fazer isso. A distância “social” entre uma pessoa e outra aqui na Alemanha deve ser a de um aperto de mão. Não chegue muito perto. Deve vir daí essa fama de frios.

Contudo, quando estamos aprendendo alemão, percebemos que a língua tem mais exceções que regras. E isso pode ser aplicado, também, na sociedade.

É quase tudo proibido? É. Vai ter gente que vai te olhar de cara feia se você atravessar a rua, mesmo vazia, com o sinal fechado? Vai.

Mas, eu duvido que eles neguem um abraço, caso você ofereça.

Eles estão tão acostumados a pedirem permissão para “invadir” o seu espaço, que acabam sentindo falta de um contato físico mais próximo.

Quantos sorrisos eu já causei por quebrar regras. Eu abraço. E não peço permissão. Para mim, é permitido transmitir calor de um corpo para o outro. Para mim, é permito trazer as exceções da língua para a vida cotidiana. O importante é que me entendam e eu seja aceita.

Até porque, vou passar o resto da vida sendo vista como brasileira por aqui, independente do tempo. Por que, raios, preciso pedir permissão, então, para ser brasileira?

Se não é permitido ser alemão para um estrangeiro, que seja proibido que ele deixe de ser quem ele realmente é. Assim, já conquistei muitos alemães. E eles agradecem dando outro abraço. 🙂

Assim são eles também

Saí com marido pra jantar. Enquanto ele ia pagar pelo estacionamento, corri para me proteger do frio e do vento na entrada de um prédio. O tempo dos ventos siberianos chegou. :/

Em minha direção, uma mulher. Ela queria entrar no prédio. Antes de abrir a porta, me pergunta se eu estava esperando por alguém. No caso, um morador. Eu respondi, sorrindo, que estava apenas me protegendo do vento.  Ela riu e me deu razão.

Então, ela abre a porta, entra no prédio e me pergunta:
– Não quer entrar pra se proteger melhor?
Agradeci e mostrei marido vindo para irmos para o restaurante.

Agora veja você, caro leitor. A mulher nunca tinha me visto na vida. Eu podia estar mentindo, ser uma ex-namorada vingativa e estar só esperando uma oportunidade de entrar no prédio e botar fogo no apartamento do dito cujo. Mas, ela preferiu acreditar em mim e se preocupar com o meu bem estar.

Eles são, muitas vezes, de uma inocência tão gentil…

Não é você

Passei o final de semana num lugar que gosto muito. É uma vila com umas trinta casas ao lado de uma floresta perto de Berlin. Não tem nada. Nem pega celular direito. Mas, eu gosto de ir pra lá exatamente pra “trocar o tapete”, como se fala por aqui. Sair da cidade e sentir a natureza. Passear no bosque, mesmo com neve e frio.

Quando vamos para lá, alugamos uma casa de um casal bem simpático. Dessa vez, ficamos sabendo que eles vão se mudar, vender a casa e se ir para as montanhas. O motivo, porém, não é o de querer estar nas montanhas ou mais longe ainda da civilização. Não. Eles foram expulsos da comunidade. Ou nunca foram aceitos. Eles se mudaram de Berlin há 20 anos para lá. Os dois são alemães. Contudo, nunca se sentiram integrados na comunidade. Com eles, também veio o estranho e o diferente. Afinal, eles eram da cidade. Até Internet quem trouxe pro povoado foram eles…

Nós vamos perder nosso refúgio de final de semana. E eu espero que eles encontrem uma comunidade mais aberta para onde eles forem. Porque por aqui e em todo lugar, interior é sempre interior.

Por isso, a lição de hoje é:
Foi na padaria e a atendente te tratou mal?
O médico te tratou com rispidez?
O instrutor fala alto achando que você não entende?

O problema não é você. São eles.
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Sobre campos e racismo

Na Alemanha, nos últimos meses, surgiu um movimento de direita que está levando milhares de pessoas para as ruas de Dresden. 20 mil pessoas. Eles protestam contra a “islamização do estado” (islamofobia), a política de refugiados, os benefícios para estrangeiros e outras coisas. Eles só não declaram seu ódio abertamente contra os estrangeiros, para não serem enquadrados como neo-nazistas. Pronto, falei!

Vejo alguns depoimentos dessas pessoas na TV e é impressionante o quanto são “cabeças-ocas”. Muitos não têm a mínima ideia do que é o islã. Colocam tudo na mesmo saco de batatas e falam coisas absurdas, como um senhor disse ver esses “estrangeiros de branco, andando com garrafas de cerveja na mão tarde da noite”. Mulçumanos não andam de branco, necessariamente. Eles não bebem álcool. Ou uma mulher dizer que a Alemanha permite casamento de crianças de 8 anos… Errr… nope!

Eu poderia estar P. da vida com esse movimento, com essa repentina exposição de pessoas com pensamentos tão medíocres. Não estou.

Na Alemanha, há liberdade de expressão. Por mais cretina que seja uma iniciativa, ela tem o direito de ir às ruas. Por que ela não pode ser proibida, há, ao mesmo tempo, um movimento contrário de pessoas fazendo passeatas “do contra”, tentando impedir que essas “criaturas” ganhem ainda mais voz.

Em Dresden, hoje, um famoso cantor resolveu fazer um show de graça na praça aonde o grupo se reuniria, forçando o cancelamento da passeata. Em Berlim, um grupo semelhante tentou fazer uma passeata aqui semanas atrás, saindo do Portal de Brandenburgo, um dos símbolos da cidade. A administração apagou as luzes do monumento, alegando não querer ver o símbolo da cidade ligada a esses ideais. Em outra cidade, uma passeata pró-diversidade foi organizada e levou mais pessoas para as ruas do que a que estava prevista do grupo direita racista. No dia 31.12.14, Angela Merkel foi à TV pedir ao povo não se “misturar com essa gentalha”. A imprensa a ridiculariza. E por aí vai…

Ontem, na TV, foi apresentado um programa especial com duas sobreviventes do holocausto em comemoração aos 70 anos do fechamento do campo de Auschwitz. Uma delas, que mora em Israel, explicando porque algumas vítimas, apesar de todo sofrimento, resolveram sair de Israel e voltarem para a Alemanha alguns anos depois, disse algo como: “os alemães são diferentes. Um tcheco (ela cresceu na Tchecoslováquia) nunca abriria a porta para abrigar um judeu. Os alemães, apesar da guerra e do nazismo, abriam. Muitos foram salvos assim.”

Que os alemães de bom coração continuem a existir nesse país. Contudo, dessa vez, em um número maior, para que 20 mil não se tornam 50 nem 100 mil.

Só mais uma coisa: #fuckpegida

Vizinhança

Desde que comecei a trabalhar pertinho de casa, ou concentrar algumas atividades no meu home office (leia-se: cantinho no meu quarto), tenho feito muita coisa só na minha vizinhança. Mesmos cafés, supermercados, academia, lojas etc.

E isso não é uma coisa só minha. É uma característica de Berlin. Apesar de grande, seus bairros têm seus próprios centros. Tem gente que dificilmente atravessa a cidade para conhecer outros lugares. Aí, a vida se concentra no bairro, ou mesmo, em pequenas comunidades, chamadas Viertel (algo como quarteirão). Eu moro em um. Faço tudo por aqui a pé ou de bicicleta.

Claro que eu saio pra passear e conheço outros lugares. Mas, depois de cinco anos morando no mesmo lugar, não é de se estranhar ficar mais “caseira”.

Contudo, achei estranho foi chegar no Brasil, querer fazer as coisas a pé e ninguém deixar. Pra tudo era carro. Em qualquer hora do dia. Com o argumento de que andar a pé era perigoso. Por um lado até entendo, já por outro, acho uma pena que as pessoas percam sua liberdade.

Enquanto eu descubro a minha aqui…

Tirando a poeira

Então também vou começar com um post no ano novo no estilo do antigo:

Pessoa agora é autônoma e se lascou. Tem que fazer declaração de imposto e chorar pra sobrar no final do mês.

Não me lembro como era no Brasil, mas aqui tem uma rubrica (contabilidade, gente) que se chama Arbeitskleidung (roupa pro trabalho). Tipo, se você é médico e compra um jaleco, deduz do imposto de renda. Se jardineiro, deduz a galocha.

No casa da pessoa aqui que tinha que ir num evento profissional chic e só tinha o vestido? Corre pra comprar sapato de salto alto, um sutiã e uma calcinha que não marcassem e uma meia calça.

Foi separar as contas pra entregar ao contador… Errr… melhor essa não.

Sei lá, vai que a imaginação é fértil, né? Nunca se sabe!

Histórias de vida

Ontem, voltando para casa, passei pelo “amiguinho de olhos azuis profundos” enquanto uma mulher também passava por ele.

Ele direcionou a canequinha dele pra ela e ela respondeu bem mal educada: “Vá trabalhar!” Ele responde: “Você trabalha?”

Eu estava atrás dela. Olhei para ele, acenei e ofereci o meu melhor sorriso, esperando que a mulher soltasse o resto de sua amargura em mim. Ela olhou para mim, eu a encarei. Ela não falou nada, mas vi que estava com vontade.

A minha resposta já estava na ponta da língua: “você conhece a história de vida dessa pessoa?”

Eu cheguei em casa triste. Não pela forma que ela o tratou. Mas, por saber que ela era estrangeira. Seu sotaque a denunciou. Mesmo que more a décadas aqui, será que ela esqueceu todas as dificuldades pelas quais passou? Ela também tem uma história. Aonde foi parar a empatia?

Já escrevi sobre isso aqui e aqui.

Será que funciona com todos? O tempo vai passando e vamos ficando mais endurecidos? Quero isso não.