Não! Não é mimimi!

Ando chorona. Ando emotiva. Vejo rostos de crianças traumatizadas em reportagens, choro. Vejo mulheres escrevendo textos de protesto contra a cultura do estupro, choro. Vejo fotos de catástrofes, choro. Vejo relatos de pessoas fazendo sua parte prum mundo melhor, choro. Vejo simples gestos de gentileza no metrô, choro.

Nesse nível. Não é TPM. Não estou grávida. Não é porque sou mulher. Nada disso.

Só estou sentindo o peso dos últimos três anos da minha vida. Só estou sentindo esse peso e transformando em emoções. Porque estou na fase de colher os frutos do meu sofrimento. Transformei uma situaçao “feia” numa coisa “bonita”. Começo a salvar o pedacinho do mundo que me compete. Começo a trabalhar pra transformar esse pedacinho num pedacinho melhor. Eu tenho uma voz. Uma voz que ainda está rouca. Mas que, dentro de mais algum tempo, será tão aguda que vou perturbar muita gente. E, isso, meu povo, não tem preço.

Porém, também estou naquela fase de pensar “se posso fazer isso e isto, porque não aquilo também?”. Aí eu queria abraçar aquela criança, a mulher, as famílias que perderam tudo e os índios… Só que não dá. Eu não sou a mulher maravilha. Eu sou só eu. E preciso concentrar essa energia naquele pedacinho de mundo.

Eu fui uma criança insatisfeita. Eu fui uma adolescente que sabia que eu podia mais. Eu virei uma adulta com uma sede tremenda. Eu sabia que tinha algo “escrito” para mim. Demorou 30 anos para eu descobrir o que era. Descobri da forma mais dura possível. Aí olho pra trás e percebo que era necessário. Tudo o que sou hoje, foi definido pelo que vivi desde que me entendo por gente.

Eu tenho uma missão. Todo mundo tem. A minha está clara agora. Eu não quero falhar. Não vou.

Eu sei que esse chororô todo é uma fase. Estou construindo um novo “eu”. Botando pra fora aquilo que tanto guardei, transformando em ação, em energia; atraindo as pessoas certas para caminharem comigo; escolhendos os caminhos.

Há um mundo de possibilidades à minha frente. Reconhecer isso me faz sentir uma gratidão proporcional à dívida que sinto ter com o universo. Contudo, acho que sou uma boa pagadora. Pelo menos, é o que acredito. E as lágrimas que caem são só reflexo disso.

“So I start a revolution from my bed”

P.S. Desculpem pela fala enigmática. Só vai entender quem sabe pelo que passei. Pra resumir: eu estive muito doente. Eu tive hanseníase. E dói até hoje, mesmo depois da cura.

Pra não perder a fé

Desde a semana passada, Berlin passa por uma onda de calor, com temperaturas acima de 30 graus. Parece besteira, mas num país sem ar-condicionado e aonde as casas são programadas para manter o calor, é muita coisa. É um verão tardio, mas é verão.

Também no verão, funcionários tiram férias. Quem tem filhos em idade escolar tem prioridade. Instituições públicas ficam com menos pessoal e alguns atendimentos ficam mais lentos. Bom pra quem sai de férias.

Acontece que Berlin tem muito trabalho pela frente com a chegada de tantos refugiados nessa época do ano. Aqui, eles passam por um registro e só depois conseguem um lugar pra ficar e recebem uma mesada para as primeiras necessidades.

Só que são muitos e é verão. Os funcionários estão de férias. Férias programadas há meses, diga-se.

Aí desde a semana passada, junto com a onda de calor, centenas de pessoas estão numa fila aguardando para serem registradas e encontrarem um lugar pra ficar. Mulheres grávidas, crianças, homens cansados que atravessaram mares e terras para chegarem aqui estavam desidratando e passando fome nessa fila. Até que…

Até que uma chamada no Facebook organizada por uma ONG, solicitando voluntários e doações, mudou a vida dessas pessoas. Em questão de horas pessoas chegavam ao local com carros carregados de água e alimentos, fraldas e até absorventes. Uma legião de pessoas, dentre eles médicos, bombeiros e tradutores, passaram esses últimos dias ajudando a melhorar um pouco as condições dessas pessoas que passam o dia inteiro numa fila esperando o momento de “chegar” realmente na Alemanha.

Chamadas em rádio e em posts na Internet contam já não ser mais necessário voluntários no local. Eles precisam apenas de doação de água e alimentos.

Aí eu fico pensando que a Alemanha é isso aí. Que o que eu admiro nos alemães e nos berlinenses é essa solidariedade, essa capacidade de se organizar por algo bom!

E não o que os políticos falam na TV, como uma propaganda descabida para desestimular o fluxo de refugiados. Eles nem sabem o que fazer para atender uma quantidade mínima de eleitores que não são solidários.

Porém, não importa o que eles – os políticos – façam ou digam, o que não pode acontecer é o povo mudar sua essência em função de uma direita conservadora. Não deve!

Desconstrua

No papel de estrangeiro, a gente se acostuma a desconstruir muitos conceitos. A começar pelos nossos próprios, quando descobrimos que os alemães nem são tão assim, nem tão assados como os outros diziam. Ou que a comida é até gostosa. Ou isso ou aquilo.

O inverso também acontece. Principalmente, quando desconstruímos os preconceitos deles em relação à gente. Mas, por aqui, é preciso haver uma atenção maior. Pois, não é só uma desconstrução dos clichês (samba, futebol e carnaval), é também uma questão de mostrar personalidade, saber do que se fala e, a partir disso, mudar a opinião do outro.

Para isso, há a necessidade de entender como os sistemas funcionam, como a sociedade funciona e como eles, no geral, reagem a certos estímulos.

Assim, quando um diálogo como o seguinte acontecer, você vai lá e descontrói. E descontrói bonito, faz favor:

Conversando sobre as diferenças culturais, sentadas à mesa uma congolesa, uma colombiana, eu, uma alemã e uma russa. Falávamos de como é a vida nos nossos países e como nós, estrangeiros, temos que nos virar por lá por falta de uma estrutura.

Aí a alemã solta:

– Engraçado. Os estrangeiros são tão independentes nos seus países, mas chegam aqui e ficam preguiçosos.

Baixou a Vera Verão em mim. Juro.

– Eppppaaaaa!!!! Não concordo! Você sabe por que isso acontece? Porque o estrangeiro chega aqui e tem primeiro que aprender alemão. Aí aprende. Só que, pro mercado de trabalho, ele nunca vai aprender alemão suficiente para ter um bom emprego. Aí fica desempregado e entra no sistema, só que o sistema desestimula qualquer tipo de empreendedorismo. A pessoa tem que arrumar um emprego e pronto. Aí volta para a questão do alemão. Desemprego. Uma hora, ele desiste. Isso não é preguiça.

– É… tem razão…

Agora vai lá e junta os caquinhos dessa desconstrução.

O que é importante pra você

Depois de mais de cinco anos, minha mãe veio me visitar pela primeira vez. Ficou apenas duas semanas, mas foram duas semanas bem intensas. Ela saiu daqui muito feliz e sei que, dentro dela, alguma coisa mudou. Nem que seja apenas a forma como ela “enxerga” e “percebe” o meu lar.

Mas, o que hoje me faz refletir e escrever esse texto foram as coisas pelas quais ela se encantou por aqui. Coisas que não me lembro terem sido tão dominantes assim quando eu cheguei. Por exemplo:

– Filha, tira uma foto minha nessa calçada. Quero mostrar para as pessoas como elas são largas aqui. (…) Você já percebeu que essa calçada é mais larga que a rua onde moro?

E era mesmo.

– Filha, está ouvindo? Pare e escuta. Não tem buzinas! Que silêncio.

– As cidades aqui não têm parques. São os parques que têm cidades. Quanto verde. Quantas flores. (Ok, ela veio no verão. Ela não diria o mesmo no inverno. Rsrsrs)

– Cadê o colorido nas roupas? Cadê as estampas? O verão deveria começar nas pessoas. Elas não deveriam esperar que esteja sol para estarem mais leves. (Além de minha mãe, também é sábia.)

– Fui pro parque sozinha. Sentei num banco e rezei. Pedi para Deus permitir que você continue aqui. Que você nunca seja obrigada a voltar para o Brasil. Só se você quiser. Essa segurança, essa paz… Você não tem mais lá.

– Eu vou voltar. Pode ter certeza. Aí você me mostra o resto.

– O importante é estar feliz. Você está? Eu também estou.

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A calçada. A minha mãe.

Eu estou feliz. E com uma saudade ainda maior no peito.

Sobre identidade – Parte 3

Para falar do processo de (re)criação de identidade que expatriados passam, precisamos falar sobre política de integração. E, olha, isso dá assunto para muitos mais textos, mas eu vou ficar só com esse mesmo, e por isso será longo… hehehe

Desde o final da segunda guerra, a Alemanha recebe estrangeiros para trabalharem aqui. Na década de 70 e 80 esse movimento de migração foi ainda mais forte. Os turcos são os que mais “aproveitaram” o boom do mercado de trabalho alemão. E eles eram bem vindos. Eram chamados de “trabalhadores visitantes”

Pera aí! Bem vindos? Ahh, Eve, para, né? Paro não. Eles eram bem vindos. Desde que viessem pra cá, trabalhassem o que tinham que trabalhar, fizessem sua poupancinha e voltassem pro seu país. Sim. Todo mundo pensava que ia ser assim. Tanto os alemães, como os turcos.

Só que não foi bem assim que aconteceu. Eles vinham… E ficavam. Mas, no início, ninguém pensava nas consequências disso. Era assim:

Os pais vinham, arrumavam emprego e, enquanto eles se fixavam por aqui, as crianças ficavam com os avós na Turquia (insira aqui outro país). Quando elas tinham idade para ficar sozinhas em casa, ou sendo criadas pela irmã mais velha, vinham pra Alemanha.

Aí você pensa: bom, as crianças vêm para o país e elas serão integradas na sociedade, né? Né não. Você sabia que essas crianças frequentavam turmas turcas? (insira aqui outra língua, iuguslava talvez) Porque, ora, elas iriam voltar um dia pro seu país, né? Né não de novo.

A primeira geração, aquela que veio para trabalhar, porque também pensava que um dia ia voltar, nunca se intregou. A Alemanha não fazia questão que isso acontecesse, porque eles também não achavam que essas pessoas fossem ficar. Viviam em suas comunidades.

A segunda geração também não foi integrada. Aprendiam alemão na marra. Não havia classes nas escolas para eles. Não nessa época. De um lado, as crianças alemãs. Do outro, as outras.

Só que essa segunda geração cresceu e arrumou trabalho nas indústrias daqui também, casou e teve filhos. Esses filhos, sim, começaram a frequentar escolas alemãs. Essa geração tem entre 15 e 30 anos. São de famílias que já moram na Alemanha há décadas. Mas por não terem sido integradas, por conta de uma ausência de políticas de integração na época, não são vistos como “alemães”.

Essa terceira geração não pertence a lugar nenhum. Não são alemães, apesar de terem nascido aqui e, muitos, terem o passaporte alemão. Não são turcos, apesar de terem pais turcos. Eles vivem entre as duas culturas, mas sem pertencer a nenhuma delas.

Será que eu consegui explicar?

Ah, Eve, mas a Alemanha tem uma política de integração hoje. Sim, tem. Sabe quantos anos ela tem? O pacote de leis da política de integração alemã tem 10 ANOS! Apenas 10 anos.

Há 10 anos, há cursos de alemão subvensionados. Desde 2005 que um não alemão nascido na Alemanha pode tirar seu passaporte alemão (estou certa, Mel?).

Mas, mesmo assim, ainda tem gente que olha para essas gerações de trabalhadores e os veem como estranhos, não alemães.

Aí me irrita ouvir brasileiro/estrangeiro que chegou tem pouco tempo na Alemanha, não conhece a história de vida dessas pessoas e solta: “afff, Fulano mora aqui há 20 anos e não sabe falar alemão direito.” Pessoa, ninguém queria que ele aprendesse. Nem era pra ele estar aqui mais. E se ele sabe, tire o chapéu pra ele, porque ele é um vencedor.

E se você acha esses adolescentes “turcos” uns chatos, cheio de gírias etc etc… Coloque-se no lugar deles, na luta por uma aceitação que não vem, buscando uma identidade que eles não sabem qual é. Sendo visto como estrangeiros ainda…

E isso porque eu nem vou entrar na questão da discriminação, elitização do ensino alemão etc etc etc. A Alemanha é linda. Mas, tem uns cantinhos bem feios.

 

Sobre identidade – parte 2

Título alternativo em alemão: Zugehörigkeit (Pertencimento)

Amiga alemã conversando comigo e uma curda (nascida na Síria) sobre achar uma pena os filhos de trabalhadores que vieram para cá melhorar a vida décadas atrás quererem voltar para o país de onde os pais vieram…

A amiga curda/síria tentando explicar a vontade de voltar e sem conseguir achar as palavras certas. Até que eu:

– Fulana, ela quer voltar para a Síria (quando for possível) por uma questão de identidade.
– Continuo sem entender. – disse a alemã.
– É simples: eu vim para cá com 28 anos. Eu sou brasileira e serei brasileira para sempre morando na Alemanha.
– E isso não é bom?
– Sim. Para mim, é. Eu morei 28 anos no Brasil. Mesmo que eu viva 50 na Alemanha, eu sei o que significa ser brasileira. Já a amiga curda/síria não. Ela veio para a Alemanha com cinco anos. Tem 26 anos que ela mora na Alemanha e continua sendo tratada como curda/síria. Ela não passou tempo suficiente na Síria para saber o que é ser síria, mesmo que todos a vejam como tal. Ela quer voltar para aprender isso, descobrir sua identidade, a sua Zugehörigkeit (aonde ela pertence).

A amiga síria me olha agradecida. A alemã não sabia mais o que dizer.

E esse problema (e a visão unilateral da amiga alemã) se repete aqui com frequência.

Em que momento uma pessoa se torna alemã na Alemanha? Infelizmente, não se torna, nasce. Tem que ter o sangue.

Os outros são todos estrangeiros.

P.S. Os curdos são um povo com língua e cultura próprias, que não tem país e ninguém quer. Eles possuem cidades na Turquia, Iraque e Síria. São os mais atingidos pela guerra no momento. Por isso, fiz questão de destacar que além de síria, ela é curda…

P.S. do P.S. Mesmo que eu adquira a cidadania alemã, a sociedade continuará me vendo como brasileira. Assunto para a parte 3 desta série.

Sobre identidade

No Brasil, nunca tive problemas com a minha identidade. Era uma mocinha de classe média baixa, que vivia no interior do nordeste, de pele branca.

Tinha alguns privilégios. Mais do que as pessoas negras (ou chocolate, café com leite, morenos como alguns são “classificados”). Mas, era nordestina. Profissionalmente, isso pesava algumas vezes: “para uma baiana/nordestina você trabalha muito bem.” Já ouvi de contratante…

Aí vim pra Alemanha e entrei na categoria “imigrante”. Perdi qualquer identidade que eu tinha. As referências que eu tinha, não serviam mais para mim. Por um tempo, me contentava apenas em ser estrangeira. Porque eu ainda passava pelo processo de “chegar”: aprender a língua, me adaptar, sobreviver aos invernos, arrumar trabalho etc.

O tempo passou, os alemães continuam me vendo como estrangeira, mas pouco a pouco, reconstruo a minha identidade.

A questão é que agora eu, brasileira, não sei a que grupo mais pertenço. Aqui, eu sou qualquer coisa, menos branca. Cresci sendo chamada de branquela. Aqui, sou sul americana, latina, qualquer coisa, menos branca. Brancos são eles, ora…

Ando matutando para reencontrar uma identidade perdida há mais 5 anos. E sempre quando eu acho que estou no caminho, descubro que esse negócio é mais complexo do que eu imaginava.

De uma coisa eu tenho certeza: eu sou a Eve. A brasileira de sorriso largo, que adora abraçar as pessoas. O resto vem com o tempo e com as minhas próprias redescobertas.

Brotando

A primavera chegou, enfim. Dentro de mim aquela certeza que, assim como o tempo e as estações, as coisas mudam. Eu mudo.

Estou numa fase muito interessante. Cheia de ideias e expectativas. Com a diferença que, dessa vez, eu sei que os projetos só dependem de mim para serem realizados.

Tudo está no seu lugar e se encaixando. Minha visão, um pouco mais aguçada, vê a Alemanha com outros olhos. A paixão e a admiração continuam. Mas, as rugas, as marcas de expressão e as cicatrizes estão mais visíveis agora.

Às vezes, pego-me pensando “se não aqui, aonde?” E percebo que essa pergunta me faz refletir sobre o que eu quero pro futuro. Ficarei no mesmo lugar? Estarei com a mesma vida de agora? Nessa cidade? Nesse país?

Aí constato que minha realidade, hoje, não tem fronteiras, nem limites. Aliás, ela tem a fronteira e o limite que eu quiser.

E eu chamo isso de Wanderlust.

O peso dos números

12 pessoas foram mortas em Paris num ataque terrorista. Nessa mesma semana, uma vila quase inteira foi dizimada na Nigéria.

Passa o tempo, o inverno vai acabando e o mar fica propício para velejar…

Velejar…

Até o momento em que escrevo este texto, estou sabendo que mais de 1600 mulheres, homens e crianças perderam a vida no mar mediterrâneo, tentando sair da África para entrar ilegalmente na Europa.

Ilegalmente… porque, veja você a ironia do destino, o refugiado político ou de guerra só pode requerer asilo estando no país. E como é que chega no país nessas circunstâncias?

Deduzo que tudo isso é para dificultar a vida do cidadão. Aí, uma vida que já é desgraçada, reduzida à um trabalho análogo ao escravo de uma vida inteira, é jogada no mar. Ou consegue atravessar. Ou vira comida de peixe.

Triste e revoltante.

Mas, mais triste e revoltante é saber que 12 cidadãos europeus pesam mais que 1600 cidadãos africanos. Em Paris, chefes de estado foram para a rua protestar, para garantir a democracia e a liberdade de expressão.

Sobre a liberdade de ir e vir de pessoas comuns ninguém discute. Sobre o direito à vida, ninguém discute. Só não entre, pelo amor de Deus, no nosso continente perfeito e imaculado. Construído às custas de uma exploração sem fim. Construído com as matérias primas e a mão de obra barata desse continente desprezado. Construído na ilusão de que selos “bio” e “fair trade” nos eximem da responsabilidade de uma exploração em escala e cheia de atravessadores.

Alemanha consome mais café que cerveja. É o segundo exportador de chocolate da Europa, só perde pra Suíça. Toneladas de rosas quenianas são consumidas aqui. À custa de quem?

Daqueles que não têm o direito de usufruir daquilo que eles mais nos oferecem.

Meu suor “europeu” e bem pago e bem vivido, vale mais que o deles todos juntos.

Que morram lá, com suas doenças e desgraças. Que morram lá, antes que cheguem aqui e nos façam lembrar que temos um dever moral e reparador para com seus destinos.

Que morram lá, mas antes, mandem café e cacau para cá. Por favor.

Vontades

Eu tenho vontade de escrever um livro com minhas memórias. Não sobre aquelas do dia a dia, mas sobre aquelas que invadem meus pensamentos. Aquelas memórias de frases não ditas, pensamentos e conceitos não concluídos, ideias mal concebidas ou sonhos apenas sonhados.

Eu tenho vontade de escrever um livro que seja capaz de traduzir minha mente. Que seja capaz de expressar as linhas de pensamentos que carrego comigo e que seriam capazes de aquecer-me no inverno se tricotadas.

Aqueles pensamentos filosóficos, aqueles pontos de vista, aquela visão de mundo muitas vezes não compartilhada.

Vontade de tirar as sensações e sentimentos que guardo dentro de mim e mostrar para o mundo. Ou só tirar mesmo daqui de dentro. Para ver se acho um pouco mais de espaço em mim. Para ver se usufruo um pouco, nem que seja por um dia, do vazio. O vazio das responsabilidades e obrigações.

Vontade de voltar para a casa da minha mãe por um instante e pedir desculpas por ter crescido. Por ter virado essa mulher forte e cheia de ideias. Geniosa, ela diria. Mas que, no fundo, continua sendo aquela garotinha esperando o ônibus kaputt da escola sozinha.

Vontade de voltar no tempo para poder fazer melhor. Vontade de poder prever o futuro, para saber o que precisa ser feito melhor. Aliás não, que dá muito trabalho.

Chega de escrever, tentar traduzir sentimentos, enquadrar pensamentos e empacotar sonhos.

Vontade mesmo só de ser, de estar e de curtir:

… quem sou, quem fui e quem serei.

Uma pessoa cheia de vontades.