Ando chorona. Ando emotiva. Vejo rostos de crianças traumatizadas em reportagens, choro. Vejo mulheres escrevendo textos de protesto contra a cultura do estupro, choro. Vejo fotos de catástrofes, choro. Vejo relatos de pessoas fazendo sua parte prum mundo melhor, choro. Vejo simples gestos de gentileza no metrô, choro.

Nesse nível. Não é TPM. Não estou grávida. Não é porque sou mulher. Nada disso.

Só estou sentindo o peso dos últimos três anos da minha vida. Só estou sentindo esse peso e transformando em emoções. Porque estou na fase de colher os frutos do meu sofrimento. Transformei uma situaçao “feia” numa coisa “bonita”. Começo a salvar o pedacinho do mundo que me compete. Começo a trabalhar pra transformar esse pedacinho num pedacinho melhor. Eu tenho uma voz. Uma voz que ainda está rouca. Mas que, dentro de mais algum tempo, será tão aguda que vou perturbar muita gente. E, isso, meu povo, não tem preço.

Porém, também estou naquela fase de pensar “se posso fazer isso e isto, porque não aquilo também?”. Aí eu queria abraçar aquela criança, a mulher, as famílias que perderam tudo e os índios… Só que não dá. Eu não sou a mulher maravilha. Eu sou só eu. E preciso concentrar essa energia naquele pedacinho de mundo.

Eu fui uma criança insatisfeita. Eu fui uma adolescente que sabia que eu podia mais. Eu virei uma adulta com uma sede tremenda. Eu sabia que tinha algo “escrito” para mim. Demorou 30 anos para eu descobrir o que era. Descobri da forma mais dura possível. Aí olho pra trás e percebo que era necessário. Tudo o que sou hoje, foi definido pelo que vivi desde que me entendo por gente.

Eu tenho uma missão. Todo mundo tem. A minha está clara agora. Eu não quero falhar. Não vou.

Eu sei que esse chororô todo é uma fase. Estou construindo um novo “eu”. Botando pra fora aquilo que tanto guardei, transformando em ação, em energia; atraindo as pessoas certas para caminharem comigo; escolhendos os caminhos.

Há um mundo de possibilidades à minha frente. Reconhecer isso me faz sentir uma gratidão proporcional à dívida que sinto ter com o universo. Contudo, acho que sou uma boa pagadora. Pelo menos, é o que acredito. E as lágrimas que caem são só reflexo disso.

“So I start a revolution from my bed”

P.S. Desculpem pela fala enigmática. Só vai entender quem sabe pelo que passei. Pra resumir: eu estive muito doente. Eu tive hanseníase. E dói até hoje, mesmo depois da cura.