No papel de estrangeiro, a gente se acostuma a desconstruir muitos conceitos. A começar pelos nossos próprios, quando descobrimos que os alemães nem são tão assim, nem tão assados como os outros diziam. Ou que a comida é até gostosa. Ou isso ou aquilo.

O inverso também acontece. Principalmente, quando desconstruímos os preconceitos deles em relação à gente. Mas, por aqui, é preciso haver uma atenção maior. Pois, não é só uma desconstrução dos clichês (samba, futebol e carnaval), é também uma questão de mostrar personalidade, saber do que se fala e, a partir disso, mudar a opinião do outro.

Para isso, há a necessidade de entender como os sistemas funcionam, como a sociedade funciona e como eles, no geral, reagem a certos estímulos.

Assim, quando um diálogo como o seguinte acontecer, você vai lá e descontrói. E descontrói bonito, faz favor:

Conversando sobre as diferenças culturais, sentadas à mesa uma congolesa, uma colombiana, eu, uma alemã e uma russa. Falávamos de como é a vida nos nossos países e como nós, estrangeiros, temos que nos virar por lá por falta de uma estrutura.

Aí a alemã solta:

– Engraçado. Os estrangeiros são tão independentes nos seus países, mas chegam aqui e ficam preguiçosos.

Baixou a Vera Verão em mim. Juro.

– Eppppaaaaa!!!! Não concordo! Você sabe por que isso acontece? Porque o estrangeiro chega aqui e tem primeiro que aprender alemão. Aí aprende. Só que, pro mercado de trabalho, ele nunca vai aprender alemão suficiente para ter um bom emprego. Aí fica desempregado e entra no sistema, só que o sistema desestimula qualquer tipo de empreendedorismo. A pessoa tem que arrumar um emprego e pronto. Aí volta para a questão do alemão. Desemprego. Uma hora, ele desiste. Isso não é preguiça.

– É… tem razão…

Agora vai lá e junta os caquinhos dessa desconstrução.