Para falar do processo de (re)criação de identidade que expatriados passam, precisamos falar sobre política de integração. E, olha, isso dá assunto para muitos mais textos, mas eu vou ficar só com esse mesmo, e por isso será longo… hehehe

Desde o final da segunda guerra, a Alemanha recebe estrangeiros para trabalharem aqui. Na década de 70 e 80 esse movimento de migração foi ainda mais forte. Os turcos são os que mais “aproveitaram” o boom do mercado de trabalho alemão. E eles eram bem vindos. Eram chamados de “trabalhadores visitantes”

Pera aí! Bem vindos? Ahh, Eve, para, né? Paro não. Eles eram bem vindos. Desde que viessem pra cá, trabalhassem o que tinham que trabalhar, fizessem sua poupancinha e voltassem pro seu país. Sim. Todo mundo pensava que ia ser assim. Tanto os alemães, como os turcos.

Só que não foi bem assim que aconteceu. Eles vinham… E ficavam. Mas, no início, ninguém pensava nas consequências disso. Era assim:

Os pais vinham, arrumavam emprego e, enquanto eles se fixavam por aqui, as crianças ficavam com os avós na Turquia (insira aqui outro país). Quando elas tinham idade para ficar sozinhas em casa, ou sendo criadas pela irmã mais velha, vinham pra Alemanha.

Aí você pensa: bom, as crianças vêm para o país e elas serão integradas na sociedade, né? Né não. Você sabia que essas crianças frequentavam turmas turcas? (insira aqui outra língua, iuguslava talvez) Porque, ora, elas iriam voltar um dia pro seu país, né? Né não de novo.

A primeira geração, aquela que veio para trabalhar, porque também pensava que um dia ia voltar, nunca se intregou. A Alemanha não fazia questão que isso acontecesse, porque eles também não achavam que essas pessoas fossem ficar. Viviam em suas comunidades.

A segunda geração também não foi integrada. Aprendiam alemão na marra. Não havia classes nas escolas para eles. Não nessa época. De um lado, as crianças alemãs. Do outro, as outras.

Só que essa segunda geração cresceu e arrumou trabalho nas indústrias daqui também, casou e teve filhos. Esses filhos, sim, começaram a frequentar escolas alemãs. Essa geração tem entre 15 e 30 anos. São de famílias que já moram na Alemanha há décadas. Mas por não terem sido integradas, por conta de uma ausência de políticas de integração na época, não são vistos como “alemães”.

Essa terceira geração não pertence a lugar nenhum. Não são alemães, apesar de terem nascido aqui e, muitos, terem o passaporte alemão. Não são turcos, apesar de terem pais turcos. Eles vivem entre as duas culturas, mas sem pertencer a nenhuma delas.

Será que eu consegui explicar?

Ah, Eve, mas a Alemanha tem uma política de integração hoje. Sim, tem. Sabe quantos anos ela tem? O pacote de leis da política de integração alemã tem 10 ANOS! Apenas 10 anos.

Há 10 anos, há cursos de alemão subvensionados. Desde 2005 que um não alemão nascido na Alemanha pode tirar seu passaporte alemão (estou certa, Mel?).

Mas, mesmo assim, ainda tem gente que olha para essas gerações de trabalhadores e os veem como estranhos, não alemães.

Aí me irrita ouvir brasileiro/estrangeiro que chegou tem pouco tempo na Alemanha, não conhece a história de vida dessas pessoas e solta: “afff, Fulano mora aqui há 20 anos e não sabe falar alemão direito.” Pessoa, ninguém queria que ele aprendesse. Nem era pra ele estar aqui mais. E se ele sabe, tire o chapéu pra ele, porque ele é um vencedor.

E se você acha esses adolescentes “turcos” uns chatos, cheio de gírias etc etc… Coloque-se no lugar deles, na luta por uma aceitação que não vem, buscando uma identidade que eles não sabem qual é. Sendo visto como estrangeiros ainda…

E isso porque eu nem vou entrar na questão da discriminação, elitização do ensino alemão etc etc etc. A Alemanha é linda. Mas, tem uns cantinhos bem feios.