Tenho um amiguinho novo. Pois é.

Quase todo dia passo por ele e ele me cumprimenta sorrindo. Na verdade, eu sorri pra ele primeiro. E como eu o vejo quase todos os dias, porque ele sempre está lá, no mesmo lugar, não tem como não falar com ele.

Ele faz parte de uma geração nova de cidadãos que moram na Alemanha. Não, duvido que ele seja alemão alemão. Mas, ele tem olhos azuis tão lindos e profundos. Já pensei até em pedir para tirar uma foto. Tão azul e tão bonito, nunca vi.

Há primeira vez que eu o vi, eu o ignorei. Fingi que ele não estava ali. Na terceira ou na quarta vez, parei e olhei para ele. Na quinta ou na sexta vez, ou depois de perder a conta de quantas vezes já tinha o visto antes, resolvi ir até ele. Eu sorri e ele sorriu.

Fiquei 1 euro mais pobre. E ganhei um sorriso. Não sei se de esperança, se de agradecimento, ou se de reconhecimento, porque eu o olhei nos olhos. Eu prestei atenção nele. Tanto, que reparei o quanto azul são seus olhos.

Desde então, ele também olha pra mim e me tira um sorriso toda vez.

Ele faz parte daquela classe de pessoas que os alemães fazem questão de ignorar. Porque na cabeça deles, o que essas pessoas fazem é desnecessário, uma vez que o governo “dá tudo”.

Ele faz parte de uma “quadrilha”, talvez, como muitos adoram dizer por aqui. Na esquina seguinte, tem outro com as mesmas vestimentas, a calça rasgada e emendada no mesmo lugar, a mesma postura, o mesmo jeito de pedir. Só não tem os olhos azuis, nem olha para mim.

A diferença é que ele não deixa de ser gente. Ele não deixa de ser digno de um olhar.

E não é bem assim que a Alemanha dá tudo.

Você sabia que qualquer cidadão tem que trabalhar durante um ano para depois ter direito a algum benefício, como o segundo desemprego? Ou, ter algum tipo de trabalho registrado que pague, no mínimo, 400 euros por mês, para se receber auxílio após os primeiros 3 meses? Se você é pai de família, você consegue pagar aluguel e sustentar uma família durante 3 meses com 400 euros? Já procurou saber as condições de alguns empregos desses para quem nunca teve a oportunidade de estudar? Ou você é daqueles que acha que todo país europeu é igual?

Mesmo um berlinense que passe por uma crise, seja expulso pela esposa de casa, porque perdeu o emprego e está endividado, pode precisar ir passar as noites em um abrigo, até que a agência de trabalho julgue o seu caso e pague o seguro desemprego devido. E até lá, ele faz o quê? Família não está aí para isso, não. Muitos nem têm.

Então, amanhã, quando passar por ele novamente, irei sorrir. Porque, pelo menos isso, ele recebe de mim e pode dar de volta. E com isso, se dá por satisfeito, já que nunca mais direcionou sua canequinha pra mim. Ele não precisa só de dinheiro.